A contaminação da água subterrânea por agrotóxicos ocorre através de processos naturais de infiltração e percolação no solo, onde os resíduos químicos utilizados em lavouras penetram as camadas geológicas até atingir os aquíferos. Esse fenômeno representa um risco significativo para a qualidade da água captada em poços artesianos, especialmente em propriedades rurais localizadas em regiões agrícolas intensivas. Os agrotóxicos, ao entrar em contato com o solo, podem se deslocar verticalmente acompanhando a água da chuva ou da irrigação, ultrapassando as barreiras naturais do subsolo e comprometendo reservas hídricas que levam anos para se regenerar.
A vulnerabilidade do aquífero depende de fatores geológicos como a permeabilidade do solo, a profundidade do lençol freático e o tipo de rocha presente na região. Poços mal construídos ou sem vedação adequada facilitam ainda mais essa contaminação, permitindo que substâncias tóxicas atinjam a água de forma mais rápida. Por isso, a realização de estudos hidrogeológicos e análises periódicas de potabilidade da água são essenciais para identificar precocemente qualquer comprometimento químico e garantir a conformidade com as normas ambientais e sanitárias vigentes.
O que são águas subterrâneas e por que são vulneráveis a agrotóxicos
As águas subterrâneas são aquelas que se infiltram no solo e se acumulam nos espaços porosos e fraturas das rochas, formando os chamados aquíferos. Esses reservatórios naturais respondem por cerca de 50% do abastecimento de água potável no Brasil, sendo a principal fonte hídrica para propriedades rurais, pequenos municípios e milhões de famílias que dependem de poços artesianos e semiartesianos.
Apesar de estarem protegidas por camadas de solo e rocha, essas reservas não são imunes à poluição. Ao contrário do que se costuma imaginar, a própria dinâmica do ciclo hidrológico — infiltração, percolação e recarga — cria caminhos naturais para que substâncias aplicadas na superfície cheguem ao lençol freático. Os agrotóxicos, por sua vez, são compostos químicos formulados para serem biologicamente ativos e, frequentemente, persistentes no ambiente, o que os torna candidatos altamente preocupantes à degradação dessas reservas.
A vulnerabilidade das águas subterrâneas está diretamente relacionada a três fatores combinados: a capacidade de atenuação natural do solo, a profundidade do aquífero e as características físico-químicas das substâncias que chegam à superfície. Em regiões agrícolas com solos arenosos, lençol freático raso e uso intensivo de defensivos, esse risco se multiplica de forma expressiva. Compreender como se desenvolve esse processo é o primeiro passo para proteger recursos hídricos essenciais à vida humana e ao equilíbrio ambiental.
Como ocorre a contaminação da água subterrânea por agrotóxicos: visão geral do processo
A contaminação da água subterrânea por agrotóxicos não é um evento pontual e imediato — trata-se de um processo gradual, muitas vezes silencioso, que envolve múltiplas etapas desde a aplicação do produto na lavoura até o momento em que ele alcança o aquífero. Conhecer cada fase desse trajeto é fundamental para identificar os pontos críticos de intervenção e proteção.
Aplicação de agrotóxicos no solo: ponto de partida da contaminação
Tudo começa quando o defensivo é aplicado sobre a cultura ou diretamente no solo. Nesse momento, apenas uma fração do produto atinge o alvo biológico pretendido. O restante — que pode representar entre 60% e 90% da dose aplicada, dependendo do método e das condições climáticas — fica retido na superfície vegetal, deposita-se sobre o solo ou é disperso pelo vento. A parcela que chega ao solo inicia uma série de interações físicas, químicas e biológicas que determinam seu destino final: degradação, adsorção às partículas sólidas, absorção pelas plantas ou, no cenário mais crítico, transporte até as águas subterrâneas.
A forma de aplicação também influencia diretamente o risco. Técnicas em pré-emergência, nas quais o produto é incorporado diretamente ao solo, ampliam o contato com a matriz sólida e, consequentemente, a probabilidade de lixiviação. Aplicações aéreas em dias com ventos fortes ou chuvas iminentes aumentam a dispersão e reduzem o tempo disponível para degradação antes do transporte hídrico.
Lixiviação: o principal mecanismo de transporte de agrotóxicos até o lençol freático
A lixiviação é o processo pelo qual substâncias solúveis são transportadas verticalmente através do perfil do solo pela ação da água, seja proveniente de chuvas, seja de irrigação. É o mecanismo mais direto e relevante para a contaminação de aquíferos por defensivos agrícolas. À medida que a água percola pelas camadas do solo, ela dissolve moléculas que não foram adsorvidas pelas partículas sólidas e as carrega progressivamente em direção ao lençol freático.
A velocidade e a intensidade desse processo dependem da interação entre a taxa de infiltração do solo, o volume de água disponível e a afinidade do composto pela fase líquida em relação à fase sólida. Moléculas com alta solubilidade em água e baixa afinidade pela matéria orgânica do solo são as mais suscetíveis a esse mecanismo. Em eventos de chuva intensa após aplicação recente, o transporte pode ser acelerado de forma drástica, especialmente em solos com alta condutividade hidráulica.
Escoamento superficial (runoff) e recarga indireta de aquíferos
Quando a taxa de precipitação supera a capacidade de infiltração do solo, ocorre o escoamento superficial, conhecido pelo termo em inglês runoff. Nesse processo, a água flui lateralmente pela superfície do terreno, carreando partículas de solo, matéria orgânica e agrotóxicos adsorvidos ou dissolvidos. Esse fluxo pode atingir corpos d’água superficiais — rios, lagos e represas — que, por sua vez, recarregam aquíferos de forma indireta, especialmente em sistemas aluvionares com conexão hidráulica a cursos d’água.
Além disso, o runoff pode concentrar defensivos em pontos específicos da paisagem, como baixadas, depressões topográficas e zonas de recarga preferencial de aquíferos, criando focos localizados de poluição mais intensa. Em propriedades rurais sem estruturas adequadas de contenção e drenagem, esse mecanismo representa uma via relevante de degradação da qualidade das águas subterrâneas.
Adsorção ao solo versus mobilidade: o que determina se o agrotóxico chega à água subterrânea
A adsorção é o processo pelo qual as moléculas de agrotóxico se ligam às partículas sólidas do solo, especialmente à fração argilosa e à matéria orgânica. Quanto maior a adsorção, menor a mobilidade do composto e, portanto, menor o risco de lixiviação. O coeficiente de adsorção normalizado pelo teor de carbono orgânico do solo (Koc) é o principal parâmetro utilizado para quantificar essa afinidade: valores elevados indicam forte ligação e baixa mobilidade; valores reduzidos apontam o oposto.
No entanto, a adsorção não é irreversível nem permanente. Variações de pH, temperatura e umidade podem liberar moléculas previamente retidas, recolocando-as em solução e tornando-as disponíveis para o transporte. Além disso, o fluxo preferencial — movimento rápido de água por macroporos, fissuras e canais biológicos — pode conduzir agrotóxicos a camadas mais profundas antes que a adsorção ocorra de forma efetiva, representando um risco frequentemente subestimado nos modelos convencionais de avaliação.
Fatores que aumentam o risco de contaminação das águas subterrâneas
A poluição de aquíferos por agrotóxicos não ocorre de forma uniforme em todos os cenários agrícolas. Ela resulta da combinação de múltiplos fatores que, quando presentes simultaneamente, criam condições de alto risco. Identificar essas variáveis é essencial tanto para o planejamento do uso de defensivos quanto para a proteção de fontes de abastecimento hídrico.
Propriedades físico-químicas dos agrotóxicos: solubilidade, Koc e meia-vida (DT50)
As características intrínsecas de cada molécula determinam em grande parte seu comportamento no ambiente. A solubilidade em água define a quantidade máxima do composto que pode ser dissolvida e transportada pela fase líquida: substâncias com solubilidade superior a 30 mg/L já são consideradas de risco moderado a alto para lixiviação. O Koc, como mencionado, quantifica a afinidade pelo solo — valores abaixo de 300 mL/g indicam alta mobilidade. Já a meia-vida (DT50) representa o tempo necessário para que metade da quantidade aplicada seja degradada no solo: compostos com DT50 superior a 30 dias têm tempo suficiente para percolar camadas mais profundas antes de se decomporem.
A combinação de alta solubilidade, baixo Koc e longa meia-vida configura o perfil de maior risco para a contaminação de aquíferos. Compostos que reúnem essas três características são classificados como de alto potencial de lixiviação e merecem atenção especial em planos de manejo agrícola e monitoramento ambiental.
Características do solo: textura, matéria orgânica, pH e porosidade
O solo funciona como a principal barreira natural entre a superfície e o aquífero. Solos argilosos, ricos em matéria orgânica, tendem a reter os defensivos com maior eficiência, reduzindo sua mobilidade. Em contrapartida, solos arenosos, com baixo teor de matéria orgânica e alta porosidade, oferecem pouca resistência ao transporte vertical de contaminantes. O pH também influencia a ionização de certas moléculas, alterando sua solubilidade e afinidade pela fase sólida.
A presença de macroporos — canais formados por raízes, minhocas e outros organismos — cria vias de fluxo preferencial que podem conduzir agrotóxicos diretamente às camadas mais profundas do perfil, contornando os mecanismos de retenção e degradação que normalmente atuariam nas camadas superficiais. Esse fenômeno é especialmente relevante em solos tropicais com estrutura biológica ativa.
Profundidade do lençol freático e tipo de aquífero
Quanto mais raso o lençol freático, maior o risco de contaminação, simplesmente porque o percurso de percolação é menor e o tempo de contato do defensivo com o solo — e, portanto, de degradação e adsorção — é reduzido. Em regiões onde o lençol freático está a menos de 5 metros de profundidade, mesmo compostos com meia-vida moderada podem atingir o aquífero em concentrações preocupantes.
O tipo de aquífero também é determinante. Aquíferos livres (freáticos), diretamente conectados à superfície por uma zona não saturada, são intrinsecamente mais vulneráveis do que aquíferos confinados, que possuem uma camada impermeável sobrejacente funcionando como barreira adicional. Aquíferos cársticos, formados em rochas carbonáticas com cavidades e condutos, apresentam risco ainda maior devido à ausência de filtração efetiva e à alta velocidade de fluxo interno.
Regime de chuvas, irrigação e recarga hídrica
O volume e a distribuição temporal das precipitações afetam diretamente a taxa de infiltração e, consequentemente, o transporte de defensivos agrícolas. Eventos de chuva intensa logo após a aplicação representam os cenários de maior risco, pois o volume de água disponível supera a capacidade de retenção do solo antes que a degradação do produto tenha avançado de forma significativa. Em regiões com estações chuvosas bem definidas, o período imediatamente após o início das chuvas em áreas recém-tratadas corresponde ao pico de vulnerabilidade.
A irrigação mal gerenciada reproduz artificialmente esse cenário. A aplicação de lâminas excessivas em solos já saturados favorece a percolação profunda de agrotóxicos. Sistemas por gotejamento, por outro lado, permitem maior controle da umidade do solo e tendem a reduzir o risco de lixiviação quando comparados à irrigação por aspersão ou inundação.
Práticas agrícolas: dose, frequência de aplicação e manejo do solo
A dose utilizada e a frequência de aplicação de cada defensivo influenciam diretamente a carga total disponível para transporte. Usos repetidos de um mesmo produto — prática comum em sistemas de monocultura — podem resultar no acúmulo progressivo no perfil do solo, superando a capacidade de retenção e degradação natural. O manejo do solo também desempenha papel relevante: o preparo convencional com aração e gradagem pode destruir macroporos e alterar a estrutura do solo, enquanto o plantio direto, ao preservar a cobertura vegetal e a estrutura biológica, pode tanto intensificar o fluxo preferencial quanto melhorar a retenção hídrica superficial, dependendo das condições específicas de cada área.
Principais classes de agrotóxicos detectados em águas subterrâneas no Brasil
Estudos realizados pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA), pela ANVISA, pela Embrapa e por diversas universidades brasileiras identificaram consistentemente resíduos de defensivos agrícolas em amostras de água subterrânea, especialmente em regiões de agricultura intensiva. As classes mais frequentemente detectadas seguem um padrão relacionado ao volume de uso e às propriedades físico-químicas de cada grupo.
Herbicidas (atrazina, glifosato, 2,4-D): os mais frequentemente encontrados
Os herbicidas lideram as detecções em águas subterrâneas no Brasil e no mundo. A atrazina, amplamente utilizada em culturas de milho e cana-de-açúcar, é um dos contaminantes mais estudados globalmente: possui solubilidade moderada (33 mg/L), Koc relativamente baixo e DT50 que pode ultrapassar 100 dias em solos com baixa atividade microbiana, configurando alto potencial de lixiviação. Sua presença em poços e aquíferos é recorrente em levantamentos realizados nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Goiás.
O glifosato, o herbicida mais utilizado no país, apresenta comportamento mais complexo: embora tenha alta solubilidade e baixo Koc em alguns tipos de solo, sua degradação é relativamente rápida em condições ideais. No entanto, seu principal metabólito, o AMPA (ácido aminometilfosfônico), é mais persistente e igualmente tóxico, sendo frequentemente identificado em amostras de água. O 2,4-D, empregado em pastagens e culturas diversas, combina alta solubilidade com meia-vida moderada, tornando-se um contaminante frequente em lençóis freáticos rasos.
Inseticidas organofosforados e neonicotinoides
Os inseticidas organofosforados — como clorpirifós, metamidofós e profenofós — são geralmente menos estáveis no ambiente do que os herbicidas, com meias-vidas mais curtas. No entanto, em solos com baixa atividade microbiana ou em condições de temperatura reduzida, sua persistência pode aumentar de forma significativa. Alguns de seus metabólitos são mais solúveis e duradouros do que o composto original, representando risco adicional para as águas subterrâneas.
Os neonicotinoides — imidacloprido, tiametoxam, clotianidina — constituem uma classe de crescente preocupação. Apresentam alta solubilidade em água, Koc baixo a moderado e DT50 que pode variar de semanas a vários meses, dependendo das condições do solo. Estudos recentes identificaram imidacloprido em aquíferos de regiões produtoras de soja e algodão no Brasil Central, levantando alertas sobre a necessidade de monitoramento específico para esse grupo.
Fungicidas e seus metabólitos persistentes
Os fungicidas representam uma classe frequentemente negligenciada nas discussões sobre poluição de águas subterrâneas, mas cujos produtos de degradação podem ser altamente persistentes. O carbendazim, metabólito do benomil, e o ETU (etilenotioureia), derivado dos ditiocarbamatos, são exemplos de subprodutos que superam em persistência e mobilidade os compostos que os originaram. Triazóis como tebuconazol e epoxiconazol, amplamente utilizados em culturas de soja, trigo e café, apresentam meias-vidas longas no solo e têm sido detectados em monitoramentos de águas subterrâneas em países com agricultura intensiva, com tendência crescente de detecção também no Brasil.
Modelos e índices usados para avaliar o risco de contaminação (GUS, DRASTIC, Embrapa)
Diante da complexidade dos processos envolvidos na contaminação de aquíferos por agrotóxicos, a ciência desenvolveu ferramentas de avaliação de risco que permitem priorizar ações de monitoramento e prevenção sem a necessidade de análises laboratoriais exaustivas em todos os cenários possíveis. Os modelos e índices mais utilizados no Brasil combinam características dos defensivos com propriedades do meio físico.
Índice GUS: como classificar agrotóxicos pelo potencial de lixiviação
O índice GUS (Groundwater Ubiquity Score), desenvolvido por Gustafson em 1989, é uma das ferramentas mais simples e amplamente utilizadas para classificar defensivos agrícolas quanto ao seu potencial de lixiviação. Ele é calculado a partir de apenas dois parâmetros: a meia-vida no solo (DT50) e o coeficiente de adsorção à matéria orgânica (Koc), por meio da fórmula: GUS = log(DT50) × (4 – log(Koc)).
Compostos com GUS superior a 2,8 são classificados como lixiviantes — ou seja, com alto potencial de atingir águas subterrâneas. Valores entre 1,8 e 2,8 indicam potencial intermediário (transitional), e valores abaixo de 1,8 são classificados como não lixiviantes. Apesar de sua simplicidade, o índice GUS é extremamente útil para triagens iniciais e para orientar a escolha de defensivos em áreas de recarga de aquíferos ou com lençol freático raso.
Modelo DRASTIC: avaliação da vulnerabilidade do aquífero
O modelo DRASTIC, desenvolvido pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA), avalia a vulnerabilidade intrínseca de aquíferos à contaminação a partir de sete parâmetros hidrogeológicos: Depth to water (profundidade do lençol), Recharge (recarga), Aquifer media (tipo de aquífero), Soil media (tipo de solo), Topography (declividade), Impact of the vadose zone (zona vadosa) e Conductivity (condutividade hidráulica). Cada parâmetro recebe uma pontuação e um peso específico, gerando um índice final que classifica a vulnerabilidade do aquífero em categorias que vão de baixa a muito alta.
No Brasil, o DRASTIC tem sido adaptado e aplicado em diversas bacias hidrográficas e regiões agrícolas, frequentemente integrado a sistemas de informação geográfica (SIG) para a geração de mapas de vulnerabilidade. Essas representações espaciais são instrumentos valiosos para o planejamento do uso do solo, a definição de zonas de proteção de captações e a orientação de programas de monitoramento da qualidade da água.
Metodologia da Embrapa para identificar cenários críticos de contaminação
A Embrapa desenvolveu metodologias específicas para a realidade brasileira, considerando as particularidades dos solos tropicais — especialmente os Latossolos e Argissolos — e as condições climáticas do país. O método proposto pela Embrapa Meio Ambiente combina o índice GUS com parâmetros locais de solo e clima, permitindo identificar cenários críticos de poluição em regiões específicas do Brasil. A abordagem inclui a análise de dados de precipitação, temperatura, textura do solo, teor de matéria orgânica e profundidade do lençol freático para gerar avaliações de risco regionalizadas.
Essa perspectiva é especialmente relevante porque os modelos desenvolvidos em países de clima temperado frequentemente subestimam o risco de contaminação em solos tropicais, onde a alta temperatura e a umidade aceleram a degradação de alguns compostos, mas também aumentam a taxa de infiltração e reduzem o tempo de residência do defensivo na zona de atenuação. A Embrapa também mantém bases de dados sobre o comportamento de agrotóxicos registrados no Brasil, fundamentais para alimentar esses modelos com parâmetros representativos das condições nacionais.
Consequências da contaminação para a saúde humana e o meio ambiente
A presença de agrotóxicos em águas subterrâneas não é apenas um problema ambiental abstrato — representa uma ameaça concreta e documentada à saúde de populações que dependem dessas fontes para abastecimento. As consequências se manifestam em diferentes escalas temporais e biológicas, desde efeitos agudos em exposições de alta concentração até impactos crônicos decorrentes de contato prolongado com baixas doses.
Riscos toxicológicos para populações que consomem água de poços e nascentes
Populações rurais que consomem água de poços artesianos ou nascentes sem tratamento adequado e sem monitoramento regular estão potencialmente expostas a resíduos de defensivos em concentrações que podem superar os limites estabelecidos pela Portaria GM/MS nº 888/2021, que define os padrões de potabilidade da água para consumo humano no Brasil. Essa portaria estabelece valores máximos permitidos (VMP) para dezenas de agrotóxicos, mas não abrange todos os compostos em uso, e muitos poços no país nunca foram submetidos a análises específicas para esses contaminantes.
Os efeitos toxicológicos variam conforme a classe do defensivo, a concentração e o tempo de exposição. Organofosforados podem causar inibição da acetilcolinesterase, levando a distúrbios neurológicos. Compostos com atividade endócrina — como atrazina e alguns fungicidas triazóis — podem interferir no sistema hormonal mesmo em concentrações muito baixas, com repercussões sobre a reprodução, o desenvolvimento e a resposta imunológica. A exposição crônica a misturas de agrotóxicos, mesmo abaixo dos limites individuais, é uma área de crescente preocupação científica, dado o potencial de efeitos sinérgicos ainda pouco compreendidos. Para entender melhor o que significa a potabilidade da água e seus critérios técnicos, é importante conhecer os parâmetros que definem a segurança do consumo.
Impactos na biodiversidade aquática subterrânea
Os ecossistemas subterrâneos abrigam uma biodiversidade específica e altamente especializada, composta por organismos adaptados à ausência de luz, baixa disponibilidade de nutrientes e condições físico-químicas estáveis. Essa fauna hiporreica e estigobionte — incluindo crustáceos, oligoquetas e microcrustáceos — desempenha funções ecológicas relevantes na ciclagem de nutrientes e na manutenção da qualidade da água subterrânea. A contaminação por defensivos agrícolas pode eliminar ou reduzir drasticamente essas comunidades, comprometendo serviços ecossistêmicos essenciais e diminuindo a resiliência do aquífero a novos impactos.
A recuperação da biodiversidade subterrânea após episódios de poluição é extremamente lenta, podendo levar décadas, dado o isolamento desses ambientes e a limitada capacidade de recolonização a partir de populações externas. Isso torna a prevenção muito mais eficaz e economicamente viável do que qualquer tentativa de remediação posterior.
Bioacumulação e efeitos de longo prazo na cadeia alimentar
Alguns agrotóxicos presentes em águas subterrâneas podem ser absorvidos por plantas irrigadas com essa água, acumulando-se nos tecidos vegetais e ingressando na cadeia alimentar. Compostos lipofílicos — com alta afinidade por gorduras — tendem a se bioacumular nos tecidos de organismos consumidores, amplificando suas concentrações a cada nível trófico em um processo conhecido como biomagnificação. Embora esse fenômeno seja mais estudado em ambientes aquáticos superficiais, há evidências crescentes de sua ocorrência em cadeias alimentares que têm como ponto de partida a água subterrânea contaminada utilizada em irrigação ou dessedentação animal.
Os efeitos de longo prazo incluem alterações endócrinas, imunossupressão, aumento do risco de determinados tipos de câncer e distúrbios no desenvolvimento neurológico, especialmente em grupos vulneráveis como crianças, gestantes e idosos. A exposição crônica e cumulativa, típica das populações rurais que dependem de fontes hídricas não monitoradas, representa um desafio de saúde pública que ainda carece de atenção adequada nas políticas de vigilância sanitária e ambiental do país.
Como monitorar e detectar agrotóxicos em águas subterrâneas
A detecção de agrotóxicos em águas subterrâneas exige métodos analíticos específicos e sensíveis, capazes de identificar e quantificar compostos presentes em concentrações frequentemente na ordem de microgramas ou nanogramas por litro. A escolha da técnica depende do grupo de compostos investigados, dos recursos disponíveis e do objetivo do monitoramento.
Métodos analíticos: cromatografia, ELISA e técnicas emergentes
A cromatografia é o método analítico de referência para a determinação de agrotóxicos em água. A cromatografia líquida de alta eficiência acoplada à espectrometria de massas (HPLC-MS/MS) e a cromatografia gasosa com detector de captura de elétrons (GC-ECD) ou espectrometria de massas (GC-MS) permitem a identificação e quantificação simultânea de dezenas de compostos com limites de detecção extremamente baixos (na ordem de ng/L). Essas técnicas são consideradas padrão-ouro, mas exigem laboratórios bem equipados, profissionais especializados e têm custo relativamente elevado.
O método ELISA (Enzyme-Linked Immunosorbent Assay) é uma alternativa mais acessível para triagens rápidas, baseada em reações imunológicas específicas para determinados compostos ou classes de defensivos. Embora menos preciso do que a cromatografia, é amplamente empregado em monitoramentos de campo e em situações onde se busca identificar rapidamente a presença ou ausência de contaminantes específicos. Técnicas emergentes, como biossensores eletroquímicos, espectroscopia de fluorescência e métodos baseados em nanomateriais, prometem ampliar a capacidade de detecção em campo com custo e tempo reduzidos, mas ainda estão em fase de desenvolvimento e validação para aplicações em monitoramento ambiental sistemático. Para saber mais sobre os critérios que definem a qualidade da água para consumo, consulte o que significa potabilidade da água e quais parâmetros são avaliados nas análises laboratoriais.
Redes de monitoramento no Brasil: PNQA, SIAGAS e programas estaduais
O Brasil conta com algumas redes de monitoramento da qualidade das águas subterrâneas, embora ainda insuficientes diante da extensão do território e da intensidade do uso agrícola. O Programa Nacional de Avaliação da Qualidade das Águas (PNQA), coordenado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), inclui o acompanhamento de águas subterrâneas em pontos estratégicos distribuídos pelo país, com análises que contemplam parâmetros físico-químicos, microbiológicos e, em menor extensão, defensivos agrícolas.
O SIAGAS (Sistema de Informações de Águas Subterrâneas), mantido pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB/CPRM), constitui um banco de dados com informações sobre poços tubulares em todo o território nacional, incluindo dados de qualidade da água em alguns pontos. Em nível estadual, programas como o PRODES e iniciativas da CETESB em